Tem um número que resume bem o momento da IA nas empresas, e ele não vem de quem vende IA. Vem de quem precisa fazer a coisa funcionar dentro de uma organização real, com sistema legado, dado espalhado e gente desconfiada.
A confiança dos CTOs na capacidade da própria empresa de implementar e escalar IA caiu para 48% em 2026. Era 62% em 2025 e 82% em 2024. Três anos seguidos de queda, segundo o relatório What CTOs Think 2026, da Akkodis, que ouviu 500 CTOs como parte de uma pesquisa maior do Adecco Group com 2 mil executivos.
Antes de ler isso como pessimismo, vale a interpretação inversa: a confiança caiu porque a experiência aumentou. Quem só viu demo continua otimista. Quem tentou colocar em produção descobriu onde o projeto trava.
A complexidade não está no modelo, está na empresa
O CEO da Akkodis, Jo Debecker, colocou o diagnóstico de forma pouco confortável e bastante honesta, em declaração reproduzida pelo TechNewsWorld:
O maior desafio que eles enfrentam agora é se conseguem fazer a IA funcionar dentro da complexidade da empresa: entre sistemas legados, dados fragmentados, controles de risco, processos de governança e fluxos de trabalho humanos.
Jo Debecker, CEO da Akkodis (tradução livre)
É uma lista sem nenhuma menção a modelo, contexto ou benchmark. Todos os itens são organizacionais. E é exatamente por isso que a confiança cai: o problema mudou de natureza e a maior parte das empresas continua tratando IA como projeto de tecnologia.

Dois anos de piloto e a conta chegando
O relatório é direto ao apontar que as organizações passaram dois anos rodando provas de conceito, e que as que ficaram presas nesse modo estão acumulando custo sem capturar valor. Essa frase merece ser lida duas vezes por quem aprova orçamento.
Piloto tem uma característica traiçoeira: ele nunca falha de forma clara. Ele entrega um resultado interessante, gera uma apresentação bonita e some. A conta, essa continua rodando.
O que os CTOs dizem que vai importar
Três achados do estudo, publicado também no comunicado oficial distribuído pela GlobeNewswire, ajudam a montar a agenda.
Primeiro, 40% dos CTOs apontam a IA agêntica, sistemas capazes de planejar, decidir e executar tarefas, como a tendência de maior impacto em 2026. Segundo, 57% já usam IA para determinar quais tarefas cabem a humanos e quais cabem a máquinas, mas a clareza sobre essa divisão continua limitando o avanço. Terceiro, e pela primeira vez, os CTOs citam inovação, e não eficiência, como o principal motivo do investimento digital.
| Sintoma | Causa provável | O que destrava |
|---|---|---|
| O piloto funciona, mas não vira produto | Falta dono, processo e critério de sucesso | Definir métrica de negócio antes de escolher a ferramenta |
| O agente acerta na demo e erra em produção | Dado fragmentado e política não codificada | Arrumar identidade e regra antes de automatizar |
| O time não usa o que foi entregue | Falta confiança e treinamento | Transformação da força de trabalho, não só implantação |
| Ninguém sabe dizer se deu retorno | Sem linha de base nem governança | Medir antes, definir guarda-corpo e revisar |
Governança deixou de ser burocracia
O relatório é claro ao dizer que escalar IA exige transformação da força de trabalho, governança nítida e confiança das pessoas que vão usar a ferramenta todo dia. Nenhum desses três itens se compra pronto.
É o mesmo argumento que levantamos em responsabilização de IA e governança aplicável: sem quem responde pela decisão, a automação vira risco distribuído. E vale lembrar que a confiabilidade dos agentes continua sendo o gargalo prático da tecnologia, tema que tratamos em confiabilidade de agentes de IA.
O que fazer com esse dado
Se você está no meio de um projeto de IA, três perguntas valem mais do que uma nova ferramenta.
Qual métrica de negócio esse projeto move, e qual era o valor dela antes de começarmos? Quem aprova a decisão automática antes de ela chegar ao cliente? E o que exatamente é tarefa da máquina, o que é tarefa da pessoa, e quem decidiu isso?
Se as três respostas não existem, o problema não é a IA. Vale, aliás, manter o ceticismo saudável sobre o discurso do setor, algo que exploramos em o alerta de bolha de Gary Marcus, e olhar com atenção o efeito da ferramenta sobre a própria equipe, como discutimos em a IA acelera o trabalho e enfraquece a autonomia.
Perguntas frequentes
Por que a confiança dos CTOs em escalar IA está caindo?
Porque a experiência aumentou. Segundo o relatório da Akkodis, o desafio deixou de ser o modelo e passou a ser fazer a IA funcionar dentro da complexidade da empresa: sistemas legados, dados fragmentados, controles de risco, governança e fluxos de trabalho humanos.
Quais são os números do estudo?
A confiança caiu para 48% em 2026, contra 62% em 2025 e 82% em 2024. O levantamento ouviu 500 CTOs e faz parte de uma pesquisa do Adecco Group com 2 mil executivos de alto escalão.
O que é IA agêntica e por que ela aparece tanto?
São sistemas capazes de planejar, decidir e executar tarefas, e não apenas responder. Quarenta por cento dos CTOs a apontam como a tendência de maior impacto em 2026, embora a maioria das empresas ainda não tenha a estrutura para escalá-la.
Qual é o risco de ficar preso em prova de conceito?
Acumular custo sem capturar valor. O relatório aponta que muitas organizações passaram dois anos em provas de conceito e que as que continuam nesse modo estão apenas empilhando despesa.
O que fazer antes de comprar mais uma ferramenta de IA?
Responder a três perguntas: qual métrica de negócio o projeto move e qual era o valor dela antes, quem aprova a decisão automática antes de ela chegar ao cliente, e o que é tarefa da máquina e o que é tarefa da pessoa.



