Por anos, TV foi a linha do orçamento que ninguém sabia defender. Servia para “construir marca”, aquele eufemismo elegante para “não conseguimos medir”.
Um relatório da Circana, intitulado “The Future of TV: Where Immersion Meets Commerce” e divulgado pelo E-Commerce Times, argumenta que essa era acabou. A TV conectada passou a entregar retorno sobre investimento publicitário mais de 15% superior ao da TV linear e mais de 21% superior ao do vídeo de formato curto.
Se o número se sustentar, a TV deixou de ser veículo de alcance e virou plataforma de funil completo. E isso muda quem senta na mesa da decisão de mídia.
A escala que ninguém percebeu chegar
O dado estrutural do relatório é este: 75% dos domicílios americanos assinam algum serviço de streaming com anúncios. Não é um nicho de early adopter. É a maioria da população em um ambiente publicitário mensurável.
Some a isso a mudança de natureza do meio. A TV saiu do engajamento de mão única e entrou na interação de mão dupla. O espectador não só assiste. Ele responde, busca, escaneia e transaciona.
A TV pode virar um ciclo de retorno. Os espectadores não apenas assistem: eles respondem, buscam, escaneiam e compram. Cada veiculação agora pode ser medida pelo sinal que gera adiante, o que muda de forma fundamental como planejamos e otimizamos campanhas.
Katherine Cartwright, cofundadora da Criterion Global, ao E-Commerce Times
Por que a TV conectada performa melhor
Michael Goodman, analista da Parks Associates, explica o mecanismo: o streaming com anúncios transforma vídeo em um canal orientado por dado, interativo e mensurável, com descoberta mais precisa, narrativa mais dinâmica e compras que se tornam imediatas e rastreáveis.
Patricia Jones, CEO da Paws PR, acrescenta um ponto sobre intenção que faz sentido intuitivo: quem liga a TV conectada tem a intenção de ver um conteúdo pelo qual se interessa. O contexto já é de atenção deliberada, não de rolagem passiva.
A discordância que vale registrar
Nem todo mundo comprou a conclusão da Circana, e é importante dizer isso. A própria Katherine Cartwright, da agência de mídia Criterion Global, contesta o achado central e afirma que TV linear e vídeo de formato curto podem, sim, superar a TV conectada em determinados contextos.
Ou seja: não existe um canal vencedor universal. Existe canal certo para objetivo, categoria e público certos. Um relatório de fornecedor de dados apontando para o formato em ascensão merece a mesma dose de ceticismo que qualquer outro.
O que muda para quem mede
Aqui está o ponto que interessa a quem cuida de analytics. Se a TV virou um ciclo de retorno, ela precisa entrar no seu modelo de medição. E a maioria das operações brasileiras ainda a trata como caixa-preta.
| Sinal de TV | Onde medir | O que ele prova |
|---|---|---|
| Busca por marca após a veiculação | Search Console e Google Trends, por janela horária | O anúncio gerou intenção, mesmo sem clique |
| Tráfego direto e por marca | GA4, comparando janelas com e sem veiculação | O espectador foi ao site por conta própria |
| Conversões assistidas na janela da campanha | GA4, com anotação da data de veiculação | Efeito de funil completo, não só de topo |
| Incrementalidade por praça ou horário | Teste geográfico ou de janela | Separa o que a TV causou do que ia acontecer |
A regra de ouro é a de sempre: anote a data e a hora de cada veiculação e compare janelas. Sem anotação, você vai atribuir à TV o que foi da promoção, e à promoção o que foi da TV.
O detalhe técnico que estraga tudo
Aaron Smedley, da Cloudinary, levanta um ponto que é fácil de ignorar e caro de descobrir tarde: se o vídeo agora funciona como vitrine, ele precisa se comportar como vitrine. Alta qualidade, carregamento rápido, experiência sem emenda.
E ele completa com o alerta certo: mesmo com o vídeo mais eficaz do que nunca, a paciência do consumidor continua curtíssima. Se carrega devagar, se a qualidade é ruim, se o conteúdo não é relevante para aquela pessoa, ela vai embora.
Ou seja: a TV pode gerar a intenção, mas quem entrega a conversão é a sua página. Se ela é lenta, você pagou por um espectador que o concorrente vai atender. Vale a mesma lógica que discutimos sobre a necessidade de dar prova ao comprador que ficou deliberado: a atenção você compra, a confiança você entrega.
Antes de defender qualquer verba de TV no Brasil, faça o dever de casa: valide a penetração de streaming com anúncios no seu público, teste incrementalidade em uma praça e só então escale. O número americano é uma direção, não uma promessa.
Perguntas frequentes
O que o relatório da Circana concluiu sobre TV?
Que a TV conectada entrega ROAS mais de 15% superior ao da TV linear e mais de 21% superior ao do vídeo de formato curto, e que 75% dos domicílios americanos assinam algum streaming com anúncios. A TV deixaria de ser veículo de alcance para virar plataforma de funil completo.
Todo mundo concorda com esses números?
Não. A própria Criterion Global, ouvida na reportagem, contesta o achado e afirma que TV linear e vídeo curto podem superar a TV conectada em determinados contextos. Não existe canal vencedor universal, existe canal certo para cada objetivo.
Como medir o efeito da TV no meu site?
Compare janelas com e sem veiculação, anotando data e hora de cada inserção. Observe busca por marca, tráfego direto e conversões assistidas no GA4. Para isolar a causa, rode um teste de incrementalidade por praça ou por horário.
Esses dados valem para o Brasil?
Servem como direção. A penetração de streaming com anúncios aqui é menor que os 75% americanos e o comportamento de segunda tela é mais forte. Valide no seu público antes de mover verba com base no número de fora.
O que pode desperdiçar o investimento em TV?
Uma página lenta ou irrelevante. Se o vídeo agora funciona como vitrine e gera busca imediata, o destino precisa carregar rápido e responder à intenção. Caso contrário, você paga pela intenção e o concorrente colhe a venda.



