Se você decide orçamento de marketing ou de tecnologia numa agência ou num time de e-commerce no Brasil, um número deveria estar no seu radar agora mesmo: o gasto com IA em 2026 deve crescer 49,5% no mundo todo, chegando a US$ 2,7 trilhões, segundo o Gartner. É o tipo de estatística que já apareceu em toda apresentação de board neste fim de ano e que também serve para justificar qualquer linha nova no orçamento com a etiqueta “IA”.
O detalhe incômodo está na letra miúda do próprio relatório. O analista John David Lovelock, Distinguished VP Analyst do Gartner, foi direto ao ponto ao comentar os números com a imprensa especializada: para ele, não há um desvio real de verba de outras áreas de TI para a IA. O que está acontecendo, segundo ele, é que empresas estão pegando gastos de tecnologia que já existiam e simplesmente rebatizando como “investimento em IA”, como mostra a cobertura da Computerworld e do HPCWire.
Isso muda completamente a leitura que uma agência ou um e-commerce deveria fazer desses números. Não basta comemorar que “o mercado de IA está crescendo”: é preciso entender onde esse crescimento é dinheiro novo de verdade e onde é apenas reclassificação contábil. Neste artigo, eu detalho os números do Gartner categoria por categoria, explico o que Lovelock quis dizer com “rebatização” de orçamento e, principalmente, trago um roteiro prático para você avaliar se o investimento em IA que está sendo aprovado na sua empresa é incremental de verdade ou só um rótulo novo em cima do que já existia.
Os números do Gartner: o gasto com IA em 2026 e a projeção para 2027
Vamos aos números que sustentam a manchete. O Gartner projeta que o gasto mundial com IA chegue a US$ 2,7 trilhões em 2026, um avanço de 49,5% sobre 2025. E o ritmo não deve desacelerar de forma brusca no ano seguinte: a projeção para 2027 é de mais 36,2% de crescimento, o que levaria o mercado para algo perto de US$ 3,64 trilhões, de acordo com o comunicado oficial do Gartner.
Onde o crescimento é mais forte: agentes, assistentes e modelos generativos
O ponto mais interessante para quem trabalha com marketing e CRM está nas categorias que crescem acima da média. O gasto com agentes e assistentes de IA deve subir 77,3% em 2026, saindo de US$ 16,5 bilhões em 2025 para US$ 29,2 bilhões, e ainda deve quase dobrar de novo em 2027, chegando a US$ 65,5 bilhões, segundo a Computerworld. É uma categoria que conversa diretamente com o que já vimos em movimentos como o do modelo de raciocínio de CRM da Salesforce, empresa que aposta pesado em agentes de IA embutidos no atendimento e na venda, e com a tendência de CRM operando fora da tela tradicional que descrevemos ao falar do MCP headless da Klaviyo.
Já o gasto com modelos de IA generativa deve saltar 117% em 2026, passando de US$ 13 bilhões em 2025 para US$ 28,3 bilhões, com projeção de chegar a US$ 51,6 bilhões em 2027. Vale notar que essa projeção de 117% já é maior do que a própria Gartner previa em maio, quando falava em algo perto de 110% de crescimento para essa categoria. Isso mostra que a corrida por treinar, ajustar e rodar modelos generativos está literalmente acelerando mês a mês, o que reforça a importância de acompanhar benchmarks independentes, como o que descrevemos no artigo sobre o Vals, benchmark de avaliação de modelos de IA, antes de decidir em qual fornecedor apostar.
Infraestrutura, software e segurança também aceleram
O crescimento não fica restrito às camadas mais visíveis para o marketing. O gasto com infraestrutura de IA deve subir 51,2% em 2026, o de software de IA deve avançar 60,2%, o de plataformas de desenvolvimento de IA deve crescer 39% (uma revisão para cima frente aos 28% previstos em maio) e o gasto com segurança voltada para IA deve praticamente dobrar, segundo a Computerworld. Para colocar esses números lado a lado, veja a tabela abaixo com a elaboração da Analytikos a partir dos dados do Gartner.
| Categoria | Crescimento previsto para 2026 |
|---|---|
| Gasto total com IA | +49,5% |
| Agentes e assistentes de IA | +77,3% |
| Modelos de IA generativa | +117% |
| Software de IA | +60,2% |
| Infraestrutura de IA | +51,2% |
| Plataformas de desenvolvimento de IA | +39% |

“Rebatização” de orçamento: o que Lovelock quis dizer com isso
Aqui está o comentário que, na minha leitura, é o mais importante do relatório inteiro para quem decide orçamento. John David Lovelock afirmou que, em vez de as empresas desviarem verba de outras frentes de TI para financiar a IA, o que está acontecendo é que “mais da verba é sobre rebatização do que sobre desvio”, nas palavras reproduzidas pela Computerworld. Na prática, isso quer dizer que empresas estão pegando compras e projetos de tecnologia que já estavam no radar, muitas vezes já contratados, e passando a chamá-los de “gasto com IA” porque algum componente de IA foi incorporado ao produto ou ao serviço.
Lovelock foi além e deu uma visão de longo prazo que ajuda a entender por que isso acontece: segundo ele, até 2030 “todo dólar vai ser, de algum jeito, um dólar de IA”. Ou seja, à medida que fornecedores de software, nuvem e serviços embutem capacidades de IA em praticamente tudo que vendem, a própria distinção entre “gasto de TI” e “gasto de IA” tende a desaparecer, porque quase nenhum produto de tecnologia ficará de fora dessa rotulagem. Isso não invalida os números absolutos do crescimento do mercado, mas explica por que uma taxa de 49,5% ao ano soa mais dramática do que a realidade orçamentária dentro de cada empresa individualmente.
Como saber se o investimento em IA da sua empresa é incremental ou só rótulo novo
Para quem toma decisão de orçamento de marketing ou tecnologia numa agência ou num time de e-commerce no Brasil, o recado prático do relatório do Gartner é simples: antes de comemorar (ou temer) uma linha nova chamada “IA” no orçamento do próximo ano, vale fazer algumas perguntas de verificação.
Perguntas para fazer antes de aprovar a linha “IA” no orçamento
- Esse investimento já existia como outra linha (CRM, ERP, plataforma de e-commerce, ferramenta de analytics) e só ganhou o rótulo “IA” porque o fornecedor lançou um recurso novo dentro do mesmo contrato?
- Existe um resultado de negócio adicional e mensurável (redução de custo de atendimento, aumento de conversão, ganho de produtividade da equipe) atribuível especificamente ao componente de IA, ou o valor gerado é o mesmo de antes, só com um nome mais atrativo?
- O fornecedor consegue mostrar dados objetivos de desempenho do modelo ou do agente que está sendo vendido, no estilo do que benchmarks independentes fazem, como descrevemos ao falar do benchmark Vals de avaliação de modelos, ou a comunicação é só marketing sobre IA?
- Há algum processo de avaliação e validação embarcado no fluxo de trabalho, algo parecido com o que empresas como a Anthropic e a Accenture estruturaram no caso do avaliador embarcado para times de linha de frente, ou a “IA” é apenas um selo colado num software que segue funcionando exatamente como antes?
O que isso muda para agências e times de e-commerce no Brasil
Na prática, isso significa três coisas para quem planeja orçamento de marketing e tecnologia por aqui. Primeiro, ao apresentar um case ou uma proposta que cita “investimento em IA” como argumento de autoridade, vale perguntar de que tipo de gasto estamos falando: infraestrutura, modelos generativos, agentes de atendimento, ou apenas uma nova etiqueta de marketing sobre um orçamento de tecnologia que já existia. Segundo, categorias como agentes e assistentes (+77,3%) e IA generativa (+117%) são, segundo o próprio Gartner, as que mais crescem de forma genuína, o que sugere que é ali que faz mais sentido buscar ganho real de produtividade em atendimento, CRM e criação de conteúdo, não necessariamente em qualquer produto que carregue a sigla “IA” no nome. Terceiro, o ritmo de evolução desses modelos é rápido o suficiente para que valha acompanhar de perto métricas de progresso do setor, como as que discutimos ao analisar o ritmo de desenvolvimento de IA medido pela Anthropic, para não comprar hoje uma solução que fica obsoleta em poucos trimestres.
No fim das contas, o gasto com IA em 2026 é, sim, um número gigantesco e real em termos de mercado global. Mas para o orçamento da sua agência ou do seu e-commerce, a pergunta que importa não é “quanto o mundo vai gastar com IA”, e sim “quanto desse gasto, dentro da minha operação, é incremento de verdade e quanto é apenas o mesmo orçamento de tecnologia usando um nome novo”. Essa distinção é o que separa uma decisão de investimento bem informada de uma decisão tomada só porque a etiqueta “IA” estava na proposta.
Perguntas frequentes
Quanto o Gartner prevê que o mundo vai gastar com IA em 2026?
O Gartner projeta um gasto mundial com IA de US$ 2,7 trilhões em 2026, um crescimento de 49,5% em relação a 2025. Para 2027, a consultoria prevê mais 36,2% de crescimento, o que levaria o mercado a algo perto de US$ 3,64 trilhões.
O que significa a "rebatização" de orçamento de TI como gasto com IA?
Segundo o analista John David Lovelock, do Gartner, a maior parte do crescimento não vem de dinheiro novo desviado de outras áreas de TI, mas de gastos de tecnologia que já existiam e passaram a ser chamados de gasto com IA porque algum recurso de IA foi incorporado ao produto ou serviço contratado.
Quais categorias de gasto com IA crescem mais rápido em 2026?
As categorias que mais crescem são modelos de IA generativa, com alta de 117%, e agentes e assistentes de IA, com alta de 77,3%. Ambas superam bastante a média geral de crescimento do mercado, que é de 49,5%.
Como uma agência ou um e-commerce pode saber se o investimento em IA é incremental de verdade?
Vale verificar se o gasto é realmente novo ou se é uma linha de orçamento antiga com rótulo trocado, se existe um resultado de negócio mensurável atribuível especificamente ao componente de IA, e se o fornecedor apresenta dados objetivos de desempenho do modelo ou do agente, em vez de apenas discurso de marketing.
O crescimento de 117% no gasto com IA generativa significa que os modelos ficaram mais caros?
Não necessariamente. O número reflete o total gasto pelas empresas nessa categoria, incluindo mais empresas adotando modelos generativos e usos mais intensos, não apenas o preço unitário de cada modelo. O próprio Gartner revisou essa projeção para cima frente à estimativa de maio, que era de cerca de 110%.



